Sombras de Luz

 

"Será que vocês podem calar a boca, só por um tempo? Eu estou tentando dormir um pouco", disse a pequena menina, com um certo tom de aborrecimento na voz.

 

"Olhe só, como eu disse, todos lhe odeiam" , disse bem alto a Luz, triunfante sobre as Trevas, não escondendo seu desdém.

 

"Isso é para as duas; agora da' um tempo! A pequena garota ia ficando mais e mais impaciente.

"Amanhã cedo eu tenho que ir prá escola",ela enfatizou.

 

"Essa Treva obnóxia foi quem começou a briga. Eu sou totalmente inocente!" a Luz se defendeu.

"Bom, Bom, Bom",disse as Trevas com a voz suave e irônica."A Luz finalmente mostra sua cara! Só mentiras!"

 

"Você é uma ótima faladora", ultrajada , berrou a Luz."Todo mundo sabe que as Trevas são covardes e enganosas! Eu, por outro lado, eu, sim, eu, a Luz, sou candidata à verdade e honestidade eternas. Eu sou a justiça e, repito, eu sou a verdade!"

 

"Por que você Luz tem que falar tão alto? Será que precisa subjugar a todos para ser levada a sério?"

 

As Trevas estavam cochichando, agora. "Temque cegar os outros com sua luz a tal ponto, que não consigam enxergar a verdade real?"

 

"Ninguém vê nada se eu não estiver lá, em primeiro lugar"; asseverou a Luz em tom de confidência, mas em alto e bom tom.

 

A menina rolava na cama suspirando, gemendo e tapando os ouvidos com as suas mãozinhas minúscul "Você não respondeu a minha pergunta", murmuraram as Trevas jubilosamente"É claro que isso prova que eu estou certa"

 

"Você só se manifesta quando eu  nào estou presente"; prosseguiu a Luz , soberba.

 

"Ah!"  Discordaram as Trevas. "O que demonstra que  eu permaneço quando você se vai. Prá começo de conversa, sem mim você não

existiria! Existiria?

 

"Agora chega!" A pequena menina num só pulo ficou em pé na cama, e determinou que pusessem um fim àquela briga, que lhe roubava o precioso sono.

 

"Quanto tempo ainda vocês duas vão ficar brigando?"

 

De repente tudo ficou muito quieto, naquele pequeno quarto de criança.

 

"E entào...respondam!"  exigiu a menina.

 

Mais silêncio.

 

Finalmente a Escuridão respondeu; devagar,pesando cada sílaba, como se a sua vida dependesse de cada uma delas:

"Havia um tempo em que eu estava em paz comigo mesma. Foi há muito, muito tempo atrás. Foi há tanto tempo que na verdade, não havia nem tempo.Então...(e eu nem me lembro quando) foi que encontrei na minha maravilhosa natureza, um ponto de luz feio e sujo. Desde então,querida menina,existe essa coisa desagradável,aborrecida,totalmente obnóxia e revoltante, que se chama Luz!"

 

Outro momento de profundo silêncio que se propaga pelo quarto da criança. Por um instante,parecia que a paz adentrara aquele quarto.

 

"O que você tem a dizer sobre tudo isso,querida Luz?" Perguntou a menina.

 

Aparentemente fora de tudo, um flash dissonante feria os olhos, e com voz afiada e penetrante, a Luz começou a gritar tão rápido e tão agudo, que por um instante a menina parou de respirar.

"Essa é a mentira mais incrível que eu já ouvi em toda a minha vida. E que vida!!! Eu tenho que dizer!Eu estou aqui desde o começo do Universo. Nada existe sem mim; nada permanece sem mim..."

 

"Exceto eu, claro". Interromperam as Trevas, com um sorriso arreganhado.

"Ah,não! parem já! Vamos resolver isso  de uma vez por todas.Vocês estão brigando assim desde o começo do Universo? É isso?”

 

"Humm, sim"; admitiu a Luz.

 

"Bem, não! Só desde que eu vi  aquela primeira manchinha de luz dentro de mim" , aumentou a Escuridão, com desgosto.

 

"Que coisa medíocre!"  disse a garotinha em tom de escárnio.

 

"Francamente eu não me lembro de ter essa porcaria de escuridão em volta. Passei toda a minha existência por cima disso"

 

"Então, quando vão parar?"

 

"Quando a Luz se for para sempre"  as Trevas responderam.

 

"Não. Quando as trevas se esvaírem para sempre" , afirmou a Luz levantando a voz mais uma vez.

 

"Não é possivel, Luz. No fim de tudo isso, ao fim do Universo só eu vou continuar; eu! eu! eu! bem depois da Luz já se ter ido!"

 

"Mas não havia nada antes de você e talvez, só talvez, haveria alguma coisa depois de você, querida Treva?" Perguntou a menina com curiosidade.

 

As Trevas permaneceram em silêncio.

 

"Você sabe ou não sabe?" insistiu a menina.

 

"Tem algo, sim, mas não considerei a possibilidade de mencioná-lo. Só quando alguém precisa realmente saber, eu me permito conceder uma ou duas sujestões"... respondeu a Escuridão, com cuidado.

 

"Bom... eu perguntei, não perguntei?" disse a pequena.

 

"Sim, mas... conquanto você prefira a Luz às Trevas, você não entenderia a resposta e isso me preocupa", disse  as Trevas e transparecia um certo tom de tristeza na brandura da sua voz.

"Mas eu amo as DUAS!" gritou a pequenina garota. "Quando eu vou deitar, eu gosto da Escuridão e do silêncio da noite.  Quando eu acordo de manhã, eu curto o sol nascendo e brilhando no céu!"

Silêncio no pequeno quarto.

 

"Mas as Trevas são o diabo, será que você não vê?  Perguntou espantada a Luz.  "Você não quer ficar com a Luz?

 

"Não se faça de tola, você". Interjeitou a Escuridão.

 

"Voces...o que fazer com tudo isso? , ela ralhou com as duas.

 

"Luz é Luz e Treva é Treva. Tanto é bom que apareçam juntas com a Luz, ou em meio às Trevas".

 

Fez uma pausa e respirou fundo.

 

"Nesse caso, parece que estamos numa longa luta" disse a garotinha, pensativamente;"mas eu tenho que dormir agora, senão amanhã eu vou ficar cansada o dia inteiro, e pode acreditar, isso não é engraçado! Agora o que vocês duas acham de dar um tempo, só por algumas horas?

E que tal tambem vocês duas gostarem uma da outra? Só por enquanto, entende?

 

"Hummm..."  trovejou as Trevas.

 

"Tsss..." silvou a Luz.

 

"Depois de tudo isso, pensem nisso:Será que não existe  alguma coisa de cada uma na outra? Será que não?

 

"Sim, mas esse é o problema... a Luz levanta a voz de novo.

 

"Psst" ordenou a menina.

 

"O que acha de gostar realmente de si mesma, mesmoque você carregue a Escuridão dentro de si? Só por esta noite, pense nisso! propôs.

 

"Eu posso tentar" , consentiu a Luz.

 

"E quanto à você, querida Escuridão?" prosseguiu a garota. "Pode tentar amar a si mesma, ainda que exista uma partícula de Luz em você, despojando sua majestade?"

 

"Hummm..."  suspirou as Trevas.

 

E por isso, uma Luz sombria adentrou o quarto da pequena criança, que  imediatamente adormeceu.

 

A brilhante Escuridão envolveu a pequena cas onde vivia a menina, incandescendo pacífica mas poderosamente.

 

Essa noite, a lua estava sorrindo.  Essa noite, o seu sorriso largo, longe de parecer mero fingimento da imaginação, era  real.